
29/05/2012 @ 22:48
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Os sonhadores cantam baixo e o sol se põe. Uma sereia paira sobre o ar deixando um rastro de brilho. Uma flor definha e cai. Um moço varre o chão e aceita o café da moça que oferece dois tipos de adoçante. Um menino chicoteia as próprias costas, um passarinho foge por prever a chuva. Mãos espalmadas recobrem o chão e, bem baixo, de longe, ouve-se o canto dos que dormem. Olho ao meu redor. Todos acenam: o moço que varre, a sereia, as mãos que pisoteio. Chamam o meu nome e não abrem a boca. Conhecem-me sem me notar. Sentem que fui algo que deveria ter durado e simplesmente evaporou. Sentem minha falta. Sinto minha falta.Fecho o livro que carregava nas mãos. Sigo em frente. Não olho para trás - não antes de ter atingido distância suficiente para ser considerado um estrangeiro quando retornasse. Não retorno. Todos continuam acenando. Guardo o livro na mochila que carrego nas costas. Dou as costas. Enfio as mãos nos bolsos da jaqueta.Já não ouço o canto dos sonhadores e o sol já nasce. Deixo no peito o vazio oscilar entre solidão, saudade e tristeza, ao preencher-se. Nos dias em que ambos preenchem o peito, consigo chorar. Nos outros, não sinto nada. Ou sinto muito. Por todos. Por tudo. Sinto, apenas. As penas. Coçam. Sinto que caem ou crescem. Sinto medo, mas fecho os olhos. O escuro fortalece a crença e purifica os anseios. Ando crente e forte. Ando só. E eu não volto. Eu não volto.
Neemias Melo
— Sem referências: (via chadevida)
Neemias Melo